A “(In)dependência” no Brasil: desfiles cívicos, o povo e os índios no Nordeste

Por Edmundo Monte

Em pleno processo de denúncias sobre corrupção, de milhões de reais e dólares habitando apartamento em área nobre (sem contar os endereços desconhecidos), de premiadas delações, de um sistema judiciário que vê até o que não enxerga; e de políticos inteligentes de todas as cores, mas que são daltônicos se não há provas, ontem muita gente marchou.

Independência de quê mesmo?!

Pergunte ao povo, a massa da população, aqueles que dependem e se viram nos trinta para botar comida em casa?

Nas principais ruas e avenidas – a maioria delas com nomes de “heróis” nacionais – em várias cidades do Brasil, o representante do povo lá estava com um largo sorriso no palanque e as mãos calejadas de palmas para os militares, os estudantes, os desportistas, e quem mais se propôs (ou foi obrigado) a marchar, desfilar.

Houve ainda as manifestações em menor escala – mas de extrema importância – dos chamados excluídos. Estas, geralmente ocorrem nas grandes cidades.

A mídia dominante não cansou de enfatizar o “feriadão” e alertar a população sobre os cuidados nas estradas, os melhores destinos e as previsões climáticas.

O feriado de um Brasil que negligencia e faz pilhéria de seus milhares de dependentes caiu numa quinta-feira.

E na sexta-feira (8), comemora-se o quê?

Talvez um (des)emprego. Milhões estão sem comemorar!

Para diversos povos e suas famílias que (sobre)vivem da agricultura em glebas semiáridas, o trabalho é quase sempre de domingo a domingo.

Lembrei-me de uma conversa/entrevista realizada em janeiro deste ano na área indígena Xukuru do Ororubá, em Pesqueira/PE.

Área Indígena Xukuru, na Serra do Ororubá (Pesqueira/PE). Foto: Edmundo Monte (2017).

 

A previsão do tempo naquela data não importava. Estava quente, com ventos fervendo; um típico clima de lascar, onde os caminhões pipa vendiam água de qualidade duvidosa e com (longas) filas de espera. O preço então, deixa quieto…

A esse respeito, um índio Xukuru – que não marchou ontem e hoje estava lá no roçado – lembrou de tempos pretéritos:

“A água, naquelas épocas, era uns anos muito bom de chuva, que não tinha desmatamento aqui, né? Anos muito bom de chuva. As nascentes de riacho antigamente, que nesse tempo eram seis meses de chuva e seis meses de verão, quando ia chegando à época do mês de janeiro, já tinha dado trovoada, e essas agriculturas todinha era criada na época da chuva mesmo. No mês de fevereiro, março, abril, maio, na época de São João, em Agosto e até setembro; que já ia terminando o inverno. Ninguém aguava um pé de planta, não. Era chuva bem controlada. Nessas épocas a chuva era muito controlada, né?”

Em 2017, a região semiárida em Pernambuco (e em outros Estados) testemunhou uma seca extrema. A região conhecida como Agreste, onde realizei a entrevista, estava literalmente sem água.

E a população marchando. Atrás de carro-pipa, dos gabinetes nas prefeituras, nas portas dos vizinhos com poços artesianos (quase secos).

Marchando.

O povo “marcha” incansavelmente há meses.

O sete de setembro mais uma vez silenciou e negligenciou as verdadeiras demandas e marchas de exacerbada parcela da população.

As andanças e os esforços diários na vida de milhares de pessoas consideradas comuns.

 

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