“A Caatinga guardiã da água”: apontamentos sobre as águas no Sertão do Pajeú/PE

Por Edmundo Monte

“Graças a Deus que fizeram esta adutora. Agora não falta mais água nas torneiras!” Expressões como essas são comuns entre os habitantes das cidades atendidas pelo Sistema Adutor do Pajeú.

Em contrapartida, muitos são os questionamentos sobre a efetividade e/ou longevidade desse abastecimento na região. Será esta a solução em definitivo para as diversas famílias no Sertão do Pajeú atendidas atualmente pelas águas captadas no rio São Francisco? Quais as outras formas de conseguir água e mantê-la no Semiárido nordestino?

Além da preocupação natural enquanto morador do Pajeú e de professor e pesquisador das temáticas indígena e ambiental no Semiárido em Pernambuco, foram essas razões que motivaram a elaboração do presente texto, a partir das minhas anotações realizadas durante o Seminário “A Caatinga guardiã da água” (5ª Semana da Água – SEMA), ocorrido no dia 23 de março de 2017, no Centro de Inclusão Digital, em Afogados da Ingazeira/PE.

O evento teve início com as reflexões do Padre Luiz (Afogados da Ingazeira/PE), que criticou os meandros e discursos político-partidários sobre o tema das águas na região. Coincidentemente, o Governador do Estado, Paulo Câmara, esteve na cidade para inaugurar obras.

O religioso destacou a importância dos recursos naturais para a vida no ambiente Semiárido, bem como a responsabilidade dos indivíduos que habitam a região enquanto mantenedores desses recursos.

Na sequência, representando as organizações sociais envolvidas na organização do Seminário, um agricultor de Santa Cruz da Baixa Verde/PE afirmou a importância do sistema agroflorestal para recuperação do solo e das nascentes. Árvores típicas do Semiárido com seus frutos,  como o umbu, o cajá e a seriguela (ciriguela na atual grafia da Língua Portuguesa), além de fontes de vitaminas, são necessárias para a retenção das águas na Caatinga.

Dentre os convidados e participantes do evento, o Professor Genival Barros Júnior (UFRPE/Serra Talhada-PE) iniciou sua palestra abordando as secas nos reservatórios em Pernambuco ao longo do ano de 2016, e prognosticando um ano negativo em 2017.

Atualmente, 13.242 famílias habitantes nas zonas rurais do Pajeú são abastecidas por carros-pipa. Qual a qualidade dessas águas?! Para uma ideia da situação alarmante e emergente, a região do Pajeú possui mais de mil açudes catalogados.

A partir de suas pesquisas, o professor chamou a atenção para o “subterrâneo esvaziado”. Para ilustrar, relatou que um agricultor, ao cavar um poço no curso do rio Pajeú, não achou água. Está tudo seco!

Em 2016, o estado de Pernambuco apresentou um quadro de seca extrema. Tal situação se agravou em 2017, passando a se tratar de seca excepcional.

A partir de dados históricos sobre as secas no Nordeste, o pesquisador Genival destacou que, a cada intervalo de oito anos, constata-se um período de seca severa. Sendo assim, o professor evidenciou a importância de se manter viva a cobertura vegetal da Caatinga.

A estratégia dos moradores no Semiárido em guardar água de diferentes modos é um risco à saúde das famílias, uma vez que boa parte dos riachos encontram-se contaminados por lixo doméstico e esgoto in natura. O palestrante destacou ainda que as barragens atuam enquanto “depósitos” de bactérias e toxinas. Com o tempo, por conseguinte, isso poderá levar a “destruição hepática ou neurológica” dos indivíduos que necessitam e utilizam essas águas cotidianamente.

Ao relembrar a questão das adutoras – com ênfase na do Pajeú – guarnecidas pelas águas do São Francisco, o pesquisador mencionou que 36 rios abastecem o “Velho Chico”. Desse total, apenas 19 são perenes. Ou seja, é iminente o risco de falta de energia, bem como de água na região. Uma hora a conta vai chegar!

São muitos os motivos alegados (ou renegados) para a incessante derrubada de espécies vegetais na Caatinga. O próprio tema do Seminário demonstrou que o agravamento da crise hídrica é consequência direta do desmatamento.

Neste bioma, 46% das matas foram destruídas. Em Pernambuco, a situação é ainda mais grave: 55% das matas de Caatinga foram retiradas.

De uma forma geral, os efeitos da destruição dessas matas estão conectados na diminuição no armazenamento das águas no Semiárido. Sem as matas, as chuvas caem em outros lugares. Mencionando um estudo recente sobre a destruição da floresta em Rondônia, o palestrante destacou que as copas das árvores são responsáveis por segurar as correntes de ar (umidade). A chuva se recicla a partir da transpiração das espécies.

Segundo o professor, a quantidade de água que entra na mata de Caatinga é o dobro da que penetra nas áreas de pastagens. Sem plantas, não há água!

Assim exclamou o pesquisador: “Tirou a mata, acabou a chuva e a capacidade de guardar água!”

Direcionando os olhares para a nascente do rio Pajeú, em 2011 o palestrante afirmou que – com sua equipe – plantaram 200 árvores na encosta da nascente. Dessas, apenas cinco prosperaram e podem ser observadas atualmente. O que deveria ser motivo de preocupação, na verdade foi timidamente comemorado. Os responsáveis pela ação relembraram as promessas de políticos na época, quando membro/s do Poder Executivo se comprometeram em fiscalizar e cuidar da área.

Os agricultores habitantes no entorno da nascente do rio Pajeú permanecem sem o suporte ou assistência do Estado e, como estratégia de sobrevivência, são obrigados a perfurar poços próximos à nascente na tentativa de alguma colheita.

Ao final da sua exposição, o pesquisador Genival Barros evidenciou a importância do reflorestamento – evitando as plantas exóticas –, incentivando o plantio de espécies nativas da Caatinga para a obtenção de água. Em linhas gerais, são essas plantas que se adaptam às especificidades climáticas na região semiárida.

Clique aqui para baixar o texto completo em PDF.

——

OBS: Ao compartilhar conteúdo, não se esqueça de citar o autor e a fonte.

Para citações bibliográficas, utilize o seguinte modelo:

MONTE, Edmundo. “A Caatinga guardiã da água”: apontamentos sobre as águas no Sertão do Pajeú/PE. Blog é do Mundo. 2017. <http://www.edmundomonte.com.br>. [Acesso em: dia/mês/ano].

 

Agradecemos sua visita. Fique à vontade para comentar: