A capela improvisada e a luz divina

Por Edmundo Monte

Aula de religião católica em colégio com nome de santo.

Tem aluno que gosta.

Outros, “respeitam” a pulso.

São aqueles que, na hora de entrar no elevador do além, temem ir para o andar de baixo.

Vários colegas não curtiam a obrigatoriedade das aulas de religião.

Na época, a disciplina reprovava quem se metesse a besta.

Isso aumentava a revolta na ala dos hereges.

Certa vez, a professora levou-nos a uma sala distante da nossa.

Falou que íamos à capelinha recém-inaugurada.

Quando ela abriu a porta, iniciaram-se as risadinhas cínicas.

Uma coisa é a pessoa improvisar, prevalecendo às boas ideias e o bom senso.

Meu camarada, a capelinha, com exceção de uns arranjos floridos e de uma luzinha vermelha acesa, era quase igual à nossa sala de aula.

Perguntávamos uns aos outros:

– Quais são os pré-requisitos para se fundar uma capela?

A professora escutou o bafafá e retrucou:

– Psiu! Falem pouco e baixinho. Respeitem o sacro-ambiente. Jesus se faz presente!

Sem entender patavinas das suas palavras e repletos de dúvidas, contra-atacamos:

– Professora, isso não parece com uma capela. Até lousa tem! Onde está Jesus?

A resposta dela foi direta:

– Estão vendo aquela luz vermelha acesa ali no cantinho? Ela representa Jesus.

– Pronto, agora que se cessaram as dúvidas, vamos começar nossa aula com uma oração.

Parte da turma – os hereges – se invocou com o contragolpe da professora:

– Onde já se viu uma coisa dessas? Eu tenho um boneco que acende uma luzinha vermelha. É Jesus, por acaso?

Outro aluno relembrou:

– Certa vez, viajando de carro com meu pai pelo interior de Pernambuco, passamos em frente a um bar com o som nas alturas, cheio de luzes vermelhas acesas e um pessoal bem animado, dançando o famoso rala-coxa.

– De uma coisa eu tenho certeza: aquilo nem era capela, tampouco as luzes representavam Jesus.

Após um zum-zum-zum danado dentro da capela, a mestra mandou nos calarmos em respeito ao divino.

O negócio ferveu…

Na mesma hora, caminhamos até o cantinho da sala – fizemos uma rodinha para esconder o delito –, e eu puxei o fio da tomada.

– Acabou, professora! Nosso pai celestial foi dar uma voltinha.

– Por que não fazemos o mesmo e voltamos à nossa sala?

Coitada, nossa atitude quase lhe custou um infarto.

Levaram-na para beber uma aguinha com açúcar e aferir sua pressão.

Finalmente, tudo voltou ao normal para o grupo dos hereges.

Passamos a curtir – além do ar condicionado geladíssimo –, um cafezinho passado naquele instante e outras regalias na sala da coordenadora.

Mas, a cereja do bolo, sem dúvidas, foi nos livrarmos da “aula encarnada na capela inventada”.

Agradeço à Tina Dobrões, a sugestão da crônica.

 

Este artigo contêm 2 Comentários

  1. Amém!
    E, por favor, não deixe de visitar e comentar no blog.
    Ele precisa da sua benção.
    Até mais, Dr. Santinho!
    kkkkkkk
    Abs,
    Edmundo

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