Manda brasa, professor! Clóvis Brighenti (UNILA)

katia_abreu-miss desmatamentoPor Clóvis Brighenti

(Professor na Universidade Federal da Integração Latino-Americana/UNILA)

A política Indigenista sob comando do agronegócio

No último dia 05 em entrevista ao jornal Folha de São Paulo, a latifundiária e pecuarista ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento deixou claro qual será a política indigenista do próximo mandato da presidente Dilma Rousseff: Nada de demarcações de terras indígenas e mudança da legislação, ou seja, uma continuidade dos últimos quatros anos do governo. Segundo a latifundiária os indígenas atuais não tem direito porque eles “saíram da floresta e passaram a descer nas áreas de produção”.

A política indigenista brasileira, legalmente não é atribuição do ministério da   Agricultura, Pecuária e Abastecimento, mas na prática é o ministério que mais exerce influência no governo sobre a temática, e é a bancada do agronegócio na câmara que tem externado os mais veementes discursos racistas, preconceituosos e tem incitando a violência contra os povos indígenas. Além da incidência política na relação com o governo há uma relação pessoal entre Dilma Rousseff e Katia Abreu, definida pela ministra como sendo de “fã” e a confiança recíproca também é verdadeira.

A declaração de que os indígenas são e deveriam permanecer na floresta revela a mais profunda ignorância externada por uma pessoa, inadmissível a um Ministro de Estado. A frase só pode ser entendida a partir da dimensão política, do uso do cargo público para impedir que os povos indígenas acessem seus direitos. Também tem a função de criar na opinião pública opiniões distorcidas e levianas no sentido da desvalorização dos povos indígenas.

Primeiramente é importante compreender que os povos indígenas não são e nunca foram da floresta. As informações arqueológica, históricas e contemporâneas demonstram que os povos indígenas vivem em aldeias, algumas chegando a constituir-se como cidades e outras apenas povoados, mas não há dados históricos que demonstram que os indígenas viviam como animais na floreta como quer fazer crer a ministra. Havia e há uma relação próxima com a floresta, devido aos conceitos de natureza humana, comum entre povos indígenas, pelo qual pessoas e meio ambiente são integrantes de um mesmo cosmos e necessitam-se reciprocamente para sobreviver, muito diferente do conceitos do agronegócio em que o meio ambiente é um estorvo, um impedimento ao lucro, basta lembrar que foi a mesma bancada de latifundiários que provocou a mudança no código ambiental brasileira plara ampliar o cultivo de cana e soja.

Os dados históricos demonstram que as regiões onde concentram-se os maiores conflitos por terra nesse pais – Mato Grosso do Sul, região Sul e Nordeste – são locais onde os povos indígenas foram violentamente arrancados de suas terras. O relatório produzido pela Comissão Nacional da Verdade e entregue no último dia 10 de dezembro a presidente Dilma, revela que a expulsão desses povos ocorreu a partir de 1950, tanto no oeste dos estados do sul como no Mato Grosso do Sul. Até esse período essas regiões eram ricas e florestadas e foi o agronegócio predador que avançou sobre as terras indígenas. Já nos anos de 1960 e 1970 com a mecanização do campo e a chegada desse novo modelo de agronegócio, os indígenas foram expulsos. Mesmo os locais em que as terras indígenas já estavam consolidadas a partir da criação de reservas no início do século XX, houveram reduções, foram feitos acordos entre Serviço de Proteção aos Índios e estados para reduzir as terras. Outros indígenas foram expulso e povos praticamente exterminados, como no caso dos Xetá no noroeste do Paraná, sem nunca terem tido acesso a uma terra regularizada.  Portanto, nada mais mentirosa e preconceituosa a declaração da ministra.

A pecuarista também fez questão de posicionar-se sobre o reconhecimento da tradicionalidade, demonstrando mais uma vez sua total ignorância e malícia com relação ao tema: “Se a presidenta entender que os pataxós estão com a terra pequena, arruma dinheiro da União, compra um pedaço de terra para eles e dá. Ótimo. Eu só não posso é tomar terra das pessoas para dar para outras.” Ou seja, se seus colegas latifundiários tomaram as terras dos pataxó é a União que deve “comprar” um pedaço de terra. Ora, senhora pecuarista, não é assim que se faz justiça nesse país.

Por fim, a Miss Desmatamento 2009 (prêmio concedido pelo Greenpeace) uso de artimanhas esdrúxulas, demonstrando o quanto irresponsável é, não apenas com relação aos povos indígenas, mas o com o Brasil: “Então vamos tomar o Rio de Janeiro, a Bahia. Por que [o raciocínio] só vale em Mato Grosso do Sul? O Brasil inteiro era deles. Quer dizer que nós não iríamos existir.” Discurso fajuta e que não contribuiu com a solução dos conflitos. Todos sabemos que os povos indígenas reivindicam terras específicas e pontuais definidas como terras tradicionalmente ocupadas. Mais de 85% do Brasil já está consolidado como não terra indígena, portanto quanto mais querem os latifundiários?

Diante do absurdo do discurso da Ministra não resta outra alternativa que pedir solenemente a presidente Dilma que demita a ministra pelo bem do Brasil.

Agradecemos sua visita. Fique à vontade para comentar: