Manda brasa, professor! Dr. Edson Silva (UFPE)

A presidenta e a ministra: índias ou amigas dos índios?
A presidenta e a ministra: índias ou amigas dos índios?

Por Edmundo Monte

O texto que segue foi produzido pelo professor e pesquisador Edson Silva, meu amigo e parceiro no site Índios no Nordeste, criticando o suplemento infantil de um grande jornal de Pernambuco, cuja ideia dos editores era “homenagear” os povos indígenas no Brasil.

“SOMOS TODOS ÍNDIOS?!” CRÍTICAS A UM DISCURSO EQUIVOCADO

“Somos todos índios?” Com esse título o Jornal do Commercio (Recife) publicou no sábado 12/04/2012 uma matéria no encarte GaleraJC, que é destinado ao público infanto-juvenil. O conteúdo da referida matéria, expressa, salvo raríssimas exceções, como a imprensa (e não somente a escrita!) trata a temática indígena, mais enfaticamente nas proximidades ou no Dia do índio: com desinformações, equívocos e preconceitos.

Até mesmo reconhecidos e prestigiados periódicos, como a revista Ciência Hoje das crianças, publicada pela SBPC, em sua edição nº 25 de abril/2012, trás na capa e no seu interior ao abordar as línguas indígenas faladas no Brasil, caricaturas grotescas que reproduzem e reafirmam estereótipos sobre e contra os índios. Como realizar discussões sobre a temática indígena com a seriedade necessária?

Ao abordar o assunto, como fugir do exótico e apresentar, discutir informações críticas? Essa é uma questão fundamental quando os meios de comunicações e ainda os livros didáticos se referem aos índios em textos e imagens.

Para uma visão crítica da citada matéria publicada no jornal, começamos pelo título infeliz: “Somos todos brasileiros”, onde novamente a antiga ideia e discursos da mestiçagem, subtendendo-se a mistura de “raças”, com a História pensada como tudo colocado em um caldeirão que formou o Brasil.

E assim ignorando, mascarando, as especificidades das diferentes e diversas expressões socioculturais indígenas existentes no país. O texto é acompanhado de fotografias com crianças indígenas, sem nenhuma referência sobre do que se trata o momento da foto, qual povo indígena e onde habita. A informação que “os antropólogos acham que hoje só existem 300 mil índios no País”, é por demais equivocada! Além dos “antropólogos” não fazerem tal afirmação, o Censo do IBGE/2010 contabilizou, embora seja o número bastante discutível pelos pesquisadores, a população indígena no Brasil em 753 mil indivíduos, sendo em Pernambuco 53 mil índios, em 12 povos, que habitam no Agreste e Sertão do estado. No mesmo texto, ainda onde se lê que em 1500 foi o ano do “Descobrimento” do Brasil, há uma ênfase na redução da população indígena resultado dos “conflitos com os brancos”, por meio da escravização, catequese e interesse pelas terras indígenas. Ao acentuar tal perspectiva é reforçada apenas uma suposta dominação colonial hegemônica diante de povos colonizados passivos. Dizendo de outra forma, uma ênfase no discurso preconceituoso sobre os índios como vítimas dos males da colonização, desprezando-se as ações individuais e coletivas indígenas, na reformulação da dominação colonial em diversos contextos sócio-históricos, como comprovam as pesquisas.

Além disso, tal conceito também colabora para uma ideia de que os índios, incapazes, estão condenados implicitamente ao desaparecimento, o que é desmentindo pelas próprias estimativas oficiais que afirmam o crescimento surpreendente da população indígena no Brasil nos últimos anos.

Ao tratar os índios como “tribos”, o texto remete a uma concepção superada de hierarquização sociológica onde se diferenciavam nações, povos, etc., cabendo as “tribos”, o último degrau de uma suposta escala de evolução sociocultural, pensada do ponto de vista Ocidental ou mais precisamente eurocêntrica. Ou seja, existem “tribos” na Europa moderna?! Ao nomearmos povos indígenas, não se trata apenas de uma questão meramente semântica, porém o reconhecimento de grupos humanos que possuem história e expressões socioculturais específicas na História do Brasil, e não fora dela, se tratando ainda de coletividades que possuem na maioria das vezes uma História muito anterior ao próprio Brasil, ao próprio Estado brasileiro.

A ênfase, como aparece no texto em questão, na nossa herança cultural indígena, seja por meio do “artesanato” (porque não Arte Indígena?!), nas “lendas” (por que não mitos indígenas?!), músicas, etc., etc., remete ao assinalado exotismo cultural: uma imagem do índio como um ser alienígena de quem se quer superficialmente conhecer a ‘cultura do índio’ em seus apetrechos materiais visíveis, que seleciona-se, em grande parte das vezes, a partir do ponto de vista consumista. Um consumo do exótico! Desprezando-se, ignorando-se, uma discussão aprofundada da importância das expressões das sócio-diversidades, dos saberes, das formas de ser e das organizações sociopolíticas indígenas, para a história da humanidade e do próprio país.

As concepções aqui assinaladas e questionadas são muito comuns na grande maioria dos textos jornalísticos, em geral, e também em publicações especializadas. O que revela abordagens que não são baseadas em pesquisas e estudos especializados sobre o tema.

Os povos indígenas inegavelmente ocuparam o cenário sociopolítico em nosso país e a partir de suas mobilizações conquistaram nos últimos anos o (re)conhecimento, o respeito e a garantia a seus direitos específicos e diferenciados. Contribuindo com isso nas discussões sobre as diferenças socioculturais, para se repensar em um novo desenho do Brasil em suas diversidades e pluralidades. Ou melhor, em suas sócio-diversidades.

Esse reconhecimento exige também outras posturas da sociedade e medidas das autoridades governamentais em ouvir dos diferentes sujeitos sociais, as necessidades de novas políticas públicas que reconheçam, respeitem e garantam essas diferenças. A Lei 11.645/2008 determinou a inclusão do ensino da história e culturas indígenas nos currículos escolares, ainda que careça de maiores definições, objetivou a superação dessa lacuna na formação escolar. A medida legal contribui para o reconhecimento e a inclusão das diferenças étnicas dos povos indígenas, para se repensar o país, a História do Brasil.

Os textos publicados, sejam jornalísticos, sejam em revistas especializadas, nos livros didáticos, ou ainda no ambiente acadêmico, devem estar sintonizados com as demandas sociais. Caso contrário, permanecerão reproduzindo, perpetuando antigas desinformações, equívocos e preconceitos sobre os povos indígenas.

* Doutor em História Social pela UNICAMP. Professor no Centro de Educação/Col. de Aplicação da UFPE, leciona no Programa de Pós-Graduação em História/UFPE e no Programa de Pós-Graduação em História/UFCG (Campina Grande/PB). Com vários artigos publicados sobre a história indígena e pesquisas que desenvolve junto ao povo Xukuru do Ororubá (Pesqueira e Poção/PE).

OBS: O texto foi compartilhado por e-mail em abril de 2012 e, posteriormente, publicado no site da ANPUH-PE.

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